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Veja, com Taiza Tosatt Eleoterio, como a psicanálise diferencia culpa de responsabilidade

Boris Miroven
Boris Miroven 27 de outubro de 2023
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Taiza Tosatt Eleoterio
Taiza Tosatt Eleoterio
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Assim como pondera a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, culpa e responsabilidade, embora muitas vezes usadas como sinônimos no dia a dia, representam vivências psíquicas bastante diferentes, e entender essa diferença pode ajudar bastante quem carrega um peso emocional desproporcional em relação a situações que viveu, especialmente dentro de relações marcadas por sofrimento ou abuso. Distinguir esses dois conceitos, mais do que um exercício teórico, costuma abrir caminho para uma relação mais leve e consciente com o próprio passado. 

Contents
O que caracteriza a culpa do ponto de vista da psicanálise familiar?O que caracteriza a responsabilidade nesse mesmo contexto?Por que essa diferença importa em relacionamentos abusivos?Como a confusão entre os dois conceitos aparece na prática clínica?Como caminhar da culpa em direção à responsabilidade?O que essa distinção permite construir a partir de agora?

O que caracteriza a culpa do ponto de vista da psicanálise familiar?

A culpa costuma estar associada a um sentimento de falha moral, uma sensação de que a pessoa fez ou deveria ter feito algo diferente, muitas vezes acompanhada de autocrítica intensa e desproporcional à situação real vivida. Ela tende a se voltar para o passado, revisitando repetidamente decisões e comportamentos, como se fosse possível reescrever o que já aconteceu. Esse movimento de revisitar constantemente o passado, sem chegar a nenhuma conclusão nova, é um dos sinais de que a culpa deixou de cumprir qualquer função construtiva e passou a ocupar um espaço desproporcional na vida emocional da pessoa.

Taiza Tosatt Eleoterio informa que a culpa, quando excessiva, pode paralisar a pessoa em um ciclo de autopunição que não leva a nenhuma mudança concreta, apenas reforçando um sofrimento que já existia, sem abrir espaço para reflexão ou crescimento a partir da experiência vivida.

O que caracteriza a responsabilidade nesse mesmo contexto?

Já a responsabilidade envolve reconhecer o próprio papel em uma situação, sem necessariamente carregar um peso moral desproporcional sobre isso, e costuma estar voltada para o presente e para o futuro: o que pode ser feito a partir de agora, diante do que já aconteceu. Ela permite avaliar escolhas de forma mais objetiva, sem que isso signifique se condenar por elas.

Como pontua Taiza Tosatt Eleoterio, assumir responsabilidade não exige sofrimento como prova de arrependimento; é perfeitamente possível reconhecer um erro, aprender com ele e seguir em frente sem se manter preso a um sentimento de culpa constante.

Por que essa diferença importa em relacionamentos abusivos?

Em contextos de relacionamento abusivo, é comum que a mulher assuma uma culpa que, na realidade, não lhe pertence, questionando-se sobre o que ela poderia ter feito diferente para evitar episódios de violência ou humilhação. Esse deslocamento de culpa costuma ser reforçado, inclusive, por discursos do próprio agressor, que atribui à vítima a responsabilidade pelos próprios comportamentos abusivos.

Taiza Tosatt Eleoterio frisa que reconhecer essa diferença é um passo importante para que a mulher deixe de carregar uma culpa que não é dela, sem que isso signifique negar a própria capacidade de fazer escolhas e reconstruir a própria vida a partir delas.

Como a confusão entre os dois conceitos aparece na prática clínica?

No cotidiano, é comum ouvir frases como “eu deveria ter percebido antes” ou “talvez se eu tivesse agido diferente, isso não teria acontecido”, frases que revelam essa mistura entre culpa e responsabilidade. Esse tipo de pensamento costuma surgir, especialmente depois de rupturas, como forma de tentar encontrar algum sentido ou controle sobre o que foi vivido, ainda que esse controle, na maioria das vezes, seja apenas ilusório diante da complexidade real da situação vivida.

Esse movimento de buscar explicações no próprio comportamento é comum, mas nem sempre saudável quando se transforma em autopunição constante, em vez de servir como ferramenta real de aprendizado e autoconhecimento sobre o que de fato pode ser mudado dali em diante.

Como caminhar da culpa em direção à responsabilidade?

Esse deslocamento não acontece de forma automática; costuma exigir tempo, elaboração emocional e, muitas vezes, apoio profissional para que a pessoa consiga separar o que de fato esteve sob seu controle daquilo que não estava. Observar os próprios pensamentos e questionar se determinada autocrítica é justa ou desproporcional já é um primeiro exercício importante nesse processo, assim como perceber quando um pensamento autocrítico se repete de forma automática, sem trazer nenhuma reflexão nova sobre a situação vivida.

Na avaliação de Taiza Tosatt Eleoterio, esse processo de elaboração, sustentado ao longo do tempo, é o que permite que a pessoa passe a olhar para o próprio passado com mais compreensão, sem abrir mão da capacidade de refletir sobre escolhas futuras de forma mais consciente.

O que essa distinção permite construir a partir de agora?

Compreender a diferença entre culpa e responsabilidade abre espaço para um tipo de autoestima menos ligado à autopunição e mais voltado para o autoconhecimento genuíno. Isso não significa deixar de refletir sobre o próprio comportamento, mas fazer isso de uma forma que efetivamente contribua para o recomeço, em vez de apenas reforçar um sofrimento já vivido. 

Aos poucos, essa mudança de perspectiva também facilita a forma como a pessoa se relaciona com erros futuros, já que passa a lidar com eles sem a mesma carga de autopunição que costumava acompanhar cada deslize no passado.

Elucidar essa diferença, como considera Taiza Tosatt Eleoterio, é o que fortalece um processo de empoderamento feminino mais consistente, permitindo que cada mulher construa uma relação mais equilibrada com o próprio passado e com as escolhas que ainda tem pela frente.

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