Resultado da feira em Esteio revela força do agronegócio, da agricultura familiar e dos investimentos que movimentam a economia gaúcha.
A Expointer 2026 terminou no último domingo (6) com números que ajudam a medir a força do agronegócio na economia do Rio Grande do Sul. Realizada no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, a 49ª edição registrou 938.470 visitantes ao longo de nove dias e movimentou R$ 6,185 bilhões em negócios, segundo o balanço divulgado pelo Governo do Estado. (Portal do Estado do Rio Grande do Sul)
Mais do que um resultado expressivo de uma feira tradicional, os números levantam uma questão importante para os gaúchos: o que o desempenho da Expointer significa para a economia do Estado depois dos impactos das enchentes de 2024? A resposta passa por máquinas agrícolas, produção rural, agricultura familiar, empregos, circulação de renda e capacidade de investimento dos produtores. O desempenho também ocorre em um momento em que o Estado tenta consolidar uma recuperação econômica marcada por diferenças entre os setores.
Por que os R$ 6,2 bilhões da Expointer são importantes para o RS
O primeiro ponto para entender o resultado é que os R$ 6,2 bilhões não representam dinheiro distribuído igualmente pela economia gaúcha nem significam que todo esse valor tenha sido pago imediatamente. Trata-se do volume de negócios registrado durante a feira, concentrado principalmente em máquinas e implementos agrícolas. Somente esse segmento alcançou R$ 5,46 bilhões, enquanto o setor automobilístico registrou R$ 668,7 milhões, segundo o balanço oficial. (Portal do Estado do Rio Grande do Sul)
Mesmo assim, o indicador é relevante porque demonstra o nível de confiança e de capacidade de investimento existente em uma parcela importante do campo gaúcho. A compra de máquinas, equipamentos e veículos envolve fabricantes, concessionárias, bancos, transportadoras, oficinas e prestadores de serviços, fazendo com que parte da movimentação ultrapasse os limites do Parque Assis Brasil. Para um Estado no qual o agronegócio possui forte peso econômico, esse tipo de investimento pode ajudar a sustentar cadeias produtivas e modernizar propriedades afetadas por perdas recentes.
O contexto econômico mostra, porém, que a recuperação não ocorre de maneira uniforme. O boletim de conjuntura do Governo do Rio Grande do Sul aponta que o PIB estadual ficou estável no primeiro trimestre de 2026 na comparação com o trimestre anterior, enquanto a indústria cresceu 0,9% e os serviços avançaram 0,2%; a agropecuária, por outro lado, recuou 9,9% no período. (Portal do Estado do Rio Grande do Sul)
Por isso, o desempenho da Expointer precisa ser observado como um sinal de investimento dentro de uma economia que ainda enfrenta desafios. O evento não elimina problemas como custos de produção, crédito, clima, infraestrutura e reconstrução, mas mostra que existe demanda por tecnologia e equipamentos no setor rural. Para o produtor, isso pode representar maior capacidade produtiva no futuro; para o Estado, significa uma cadeia econômica potencialmente mais dinâmica.
Agricultura familiar ganha espaço e aproxima campo e consumidor
Outro dado importante da Expointer 2026 está fora do grande volume de negócios das máquinas. O Pavilhão da Agricultura Familiar registrou R$ 14,4 milhões em vendas, reunindo 509 empreendimentos e expositores de diferentes regiões do Rio Grande do Sul. O espaço reuniu agroindústrias, artesanato, plantas, flores e outros produtos, mostrando uma face do agronegócio que está diretamente ligada ao consumo das famílias. (Portal do Estado do Rio Grande do Sul)
A dimensão social desse resultado merece atenção. Entre os participantes estavam 265 jovens envolvidos nos empreendimentos e 179 negócios liderados por mulheres, além de empreendimentos indígenas e quilombolas. Também havia 69 empreendimentos com certificação orgânica. Esses números ajudam a mostrar que a agricultura familiar não deve ser entendida apenas como uma atividade de pequena escala, mas como uma rede de produção, comercialização e geração de renda espalhada por diferentes municípios gaúchos. (Portal do Estado do Rio Grande do Sul)
Para o consumidor, a feira também funciona como uma vitrine do que é produzido no próprio Estado. Queijos, embutidos, vinhos, sucos, mel, geleias, pães, cucas, erva-mate, cervejas artesanais e outros produtos aproximam quem vive nos centros urbanos das cadeias produtivas do interior. Em um cenário de reconstrução econômica, essa conexão pode estimular a valorização dos produtos regionais e ampliar mercados para pequenos empreendedores. (Portal do Estado do Rio Grande do Sul)
A relevância da agricultura familiar também aparece no tamanho da participação na feira. Em 2025, o pavilhão havia registrado R$ 13,6 milhões em vendas; em 2026, o valor chegou a aproximadamente R$ 14,4 milhões. A evolução mostra que o espaço segue ganhando importância comercial e pode servir como canal de divulgação para produtores que dificilmente teriam a mesma exposição individualmente.
O que a Expointer revela sobre a recuperação econômica do Rio Grande do Sul
Os números da Expointer ganham ainda mais significado quando colocados ao lado do desempenho recente do agronegócio gaúcho. Dados divulgados pelo Governo do Estado apontam que as exportações do agronegócio do Rio Grande do Sul chegaram a US$ 7 bilhões no primeiro semestre de 2026, representando 71% das exportações estaduais e crescimento de 8,8% em relação ao mesmo período de 2025. (Portal do Estado do Rio Grande do Sul)
A soja teve papel decisivo nesse desempenho. No segundo trimestre, o complexo soja movimentou US$ 1,5 bilhão em exportações, com alta de 47,6% sobre o mesmo período do ano anterior. A produção estadual da oleaginosa também apresentou recuperação expressiva, com aumento de 34,4% na safra de 2026 em relação à anterior, segundo a nota técnica estadual. (Portal do Estado do Rio Grande do Sul)
Esse cenário ajuda a explicar por que os negócios fechados em Esteio são relevantes para além dos nove dias de evento. Quando produtores investem em máquinas e tecnologia, o impacto pode aparecer posteriormente no campo, na produtividade, na demanda por serviços e na capacidade de responder a novos ciclos climáticos. O Rio Grande do Sul ainda convive com as consequências das enchentes de 2024, e a recuperação da infraestrutura rural e da capacidade produtiva continua sendo uma tarefa de longo prazo.
Também é importante não interpretar os resultados como sinal de que todos os produtores estejam em situação confortável. O próprio desempenho do mercado de trabalho do agronegócio mostra oscilações sazonais: no segundo trimestre de 2026, o setor teve saldo negativo de 9.665 empregos formais, associado principalmente ao encerramento da colheita das culturas de verão. No primeiro semestre, entretanto, o saldo acumulado foi positivo em 13.503 postos, mostrando como o calendário agrícola influencia os indicadores. (Portal do Estado do Rio Grande do Sul)
Para o gaúcho, portanto, a principal mensagem da Expointer 2026 não está apenas no valor bilionário anunciado. O resultado mostra que o campo continua sendo uma das principais engrenagens econômicas do Estado, ao mesmo tempo em que evidencia a importância de transformar investimentos em produtividade, renda, emprego e maior capacidade de resistência diante de eventos climáticos extremos. A feira também deixa uma perspectiva para o futuro: a 50ª Expointer já está marcada para ocorrer de 28 de agosto a 5 de setembro de 2027, novamente em Esteio. (Portal do Estado do Rio Grande do Sul)
O desafio agora é fazer com que a movimentação observada na feira continue produzindo efeitos fora dos pavilhões. Para o Rio Grande do Sul, isso significa ampliar a capacidade de investimento do produtor, fortalecer cooperativas e agroindústrias, melhorar infraestrutura e garantir que a recuperação pós-enchentes resulte em estruturas mais preparadas para novos eventos extremos. A Expointer mostrou que existe mercado, tecnologia e capacidade produtiva; o próximo passo é transformar essa força em crescimento mais disseminado pelo território gaúcho.
