Em entrevista exclusiva ao Cepas & Cifras, Maurício Salton revela como a tecnologia poderá ser uma aliada na linha de produção

“Tecnologia, inovação e sustentabilidade são temas centrais aqui na Salton”, destaca Maurício

No ano marcado pela Covid a vinícola Salton viu suas vendas aumentarem 14,8%, para R$ 259,4 milhões e o lucro voltar a um bom patamar (R$ 11,5 milhões). A empresa se beneficiou do aumento da procura por vinhos pelo consumidor brasileiro, mas também por uma estratégia de gestão de estoques que vem sendo empregada desde 2016. Nesta entrevista exclusiva ao Cepas & Cifras, o CEO Maurício Salton (foto) antecipa investimentos da companhia na Indústria 4.0 e também na unidade que fica em Santana do Livramento, na Campanha Gaúcha. “Estaremos partindo de um modelo de operação analógico e cruzando a fronteira da gestão 4.0”, anuncia. Confira.

Como a reposição de estoques foi vital para fazer com que a companhia tivesse um bom desempenho em 2020, o ano marcado pela pandemia?
A falta de insumos que afetou o setor vinícola ainda traz desafios e é por isso que, diante desse cenário, seguimos agindo com cautela. Desde 2016, a Salton trabalha para minimizar riscos de falta de produtos, afinal, naquele ano, a vinícola sofreu com uma quebra sem precedentes na safra da uva. Em 2020, a companhia redesenhou seu planejamento, ainda no primeiro semestre, diante do início da pandemia, antecipando o enfrentamento de dificuldades com suprimentos. Estas surgiram logo no segundo semestre, em função do cenário que se formava com seus fornecedores enfrentando dificuldades de produção. Diante disso, as compras foram antecipadas justamente para mitigar os riscos mapeados. Os fornecedores foram informados previamente sobre a manutenção de nosso plano de compras, independente do cenário, trazendo assim confiança para as negociações além de facilidade na retomada do fluxo de produção.

A empresa anunciou um aporte de aproximadamente R$ 16 milhões entrar na era da Indústria 4.0. Pode dar mais detalhes?
Tecnologia, inovação e sustentabilidade são temas centrais aqui na Salton.Na área de vinificação e utilidades investiremos em tecnologias de refrigeração para aprimorar o controle das fermentações. Com automação, sensores e softwares específicos, nossa Central de Fermentações, passará a regular a batelada de tanques de espumantes. Desse modo, a inteligência artificial, através de algoritmos, vai proceder com as intervenções necessárias no líquido em tanque, reduzindo controles operacionais e otimizando a mão de obra. Ou seja, estaremos partindo de um modelo de operação analógico e cruzando a fronteira da gestão 4.0. Ainda na área de vinificação, investiremos no aprimoramento e beneficiamento qualitativo de processos de filtração que visam reduzir o desperdício além de diminuir a produção de resíduos dessa importante etapa da elaboração.

A viticultura também terá influência dos algoritmos?
Sim. Novos vinhedos vêm sendo cultivados, na Azienda Domenico, em Santana do Livramento, já no modelo de manejo sustentável, orientados para automação, seguindo preceitos da indústria 4.0 e especialmente planejados para atender à atual demanda de matéria-prima. Em relação às pesquisas, recentemente, firmamos um projeto com a Universidade de Caxias do Sul (UCS) para a realização de um inventário de emissão gases efeito estufa e análise do ciclo de vida do produto. Este projeto desdobrará iniciativas e investimentos para que a Salton se torne uma empresa carbono neutra, até 2030.

Como a unidade localizada em Santana do Livramento auxiliará para o alcance de melhores resultados e ganho de mercado?
Em 2020, modificamos as composições de algumas quadras em nossos vinhedos próprios, substituindo aquelas que apresentaram baixa histórica na relação entre a qualidade dos frutos e seu rendimento. Introduzimos ali um novo conceito, baseado em estatística combinada com o resultado de modelos de trabalho. Após a realização de testes em diferentes áreas de vinhedos, com modelos diferentes de condução, analisamos os custos-benefícios de cada uma dessas áreas, mensurando os custos de manejo em relação à quantidade e à qualidade dos frutos obtidos. Foi um mapeamento estatístico fase a fase do calendário vitícola, tudo isso para que pudéssemos adotar as práticas mais sustentáveis em termos ambientais e também econômicos. Em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em estudo realizado nos vinhedos da Azienda Domenico, conseguimos ainda mapear as práticas de adubação específicas em nossa propriedade, com definição de nutrientes necessários para enriquecimento do solo, as doses exatas e o período ideal de sua aplicação. A Azienda Domenico, em Santana do Livramento, responde hoje, por pouco menos de 10% de nossa matéria-prima. Com esse incremento no plantio e as melhorias no cultivo, planejamos chegar a 15% dentro de pouco tempo. O mais importante, porém, é a autonomia que a Salton vem ganhando na produção de algumas variedades de uvas estratégicas, como é o caso da Chardonnay, utilizada em bases de espumante e que, em breve, terá mais de 50% de sua origem em nossos próprios vinhedos.

Como o fim da Substituição Tributária no Sul e em São Paulo deu fôlego para a empresa em 2020 e como auxiliará neste ano?
As vinícolas possuem, até determinada fase operacional, um modelo que se assemelha ao agronegócio, trabalhando mediante safras. Nesse período, aumentam-se os custos de produção e uma vez que a venda só ocorrerá no futuro, as vinícolas precisam sustentar estoques elevados. Por isso o regime de Substituição Tributária (ST) é incompatível com o modelo de negócio vitivinícola: existe um gap significativo entre o investimento no negócio e o retorno sobre esse investimento, afinal, nosso ciclo operacional é longo. A ST nos obriga a desembolsar recursos do caixa, quando a grande fração do nosso capital está aplicado no estoque. Esse regime tributário faz com que a vinícola antecipe o pagamento do tributo final sobre uma venda que, na maioria das vezes, sequer foi recebida. E essa antecipação, uma vez que os recursos próprios estão totalmente empregados na produção e estoques, acaba sendo financiada com recursos de terceiros. Trata-se também de um regime de tributação que não gera ganho de arrecadação ao estado, pelo contrário, ela incentiva o descaminho no mercado e força a descapitalização da indústria, tornando-a menos competitiva. Assim, esperamos que outros estados sigam o exemplo de São Paulo e do Sul, e que entendam que o retorno ao regime plurifásico de tributação não se traduz em perdas em termos arrecadatórios e traria novo fôlego para a competitividade da indústria nacional.

Qual será o papel da subsidiária Arade, no Uruguai, para a vinícola?
Esta subsidiária surgiu com o propósito de operarmos algumas questões de importações da empresa, relacionadas principalmente aos insumos enológicos e vitícolas, além de lidar com eventuais riscos de desabastecimento, como no caso de uma ruptura da matéria-prima e consequente gap de vinificação. Como esse foi seu papel até então, neste momento, há pouca movimentação na subsidiária Arade. Destaco, porém, que a companhia segue investindo na internacionalização como uma estratégia competitiva. É o caso de nosso escritório in loco, nos Estados Unidos, diante da grande movimentação comercial no mercado norte-americano além de um membro de nossa equipe, na China, dedicando plena atenção ao avanço das exportações em todo o mercado asiático.