Rogério Pizzato, que já havia sido preso, chegou a ser solto durante o processo, e teve prisão decretada mais uma vez. A defesa informou que vai analisar um possível recurso. Terapeuta havia sido preso em junho, mas foi solto menos de um mês depois.
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A Polícia Civil prendeu preventivamente, neste sábado (5), um terapeuta holístico acusado de violação sexual mediante fraude, em Canoas na Região Metropolitana de Porto Alegre. Segundo a polícia, Rogério Pizzato abusava sexualmente das pacientes e alegava a elas que era parte do tratamento.
Ao G1, o advogado de defesa, Valdir Florisbal Jung, informou que irá analisar a decisão e um possível recurso. “Ficamos surpresos com a decisão, tendo em vista que o acusado é primário, de bons antecedentes, tem residência fixa, vínculo familiar e vinha cumprindo todas as cautelares determinadas pelo juiz do processo”. (Leia nota na íntegra abaixo)
A investigação começou em maio deste ano após duas mulheres denunciarem os abusos na delegacia. Rogério chegou a ser preso, mas foi solto menos de um mês depois. O Ministério Público recorreu da decisão e o Tribunal de Justiça do RS decretou novamente a prisão do acusado.
“A gravidade do fato, o meio insidioso que usava para atrair as vítimas e a forma de coagi-las a manter relação sexual motivou novo pedido de prisão, o qual foi deferido no dia 03 de dezembro e cumprido no dia de hoje [sábado]”, diz a delegada Clarissa Demartini.
De acordo com a polícia, 10 mulheres afirmaram que foram vítimas do terapeuta. “Todas elas apresentavam-se abaladas emocionalmente e relataram que o contato sexual era aceito, pois indicado como forma de tratamento e cura aos problemas que apresentavam”, explica.
Além da violência sexual, as mulheres relataram perda de valores, tendo uma das vítimas mencionado que gastou cerca de R$ 25 mil em terapia e cursos que o acusado oferecia.
“Nas sessões, o terapeuta, conhecendo a fragilidade da vítima, alegava que o contato sexual, estimularia a energia vital das pacientes e que ele seria o caminho da cura, para tanto ela precisaria manter relação sexual consigo. Confiando nas palavras daquele que se intitulava como “mestre”, as vítimas cediam. Porém, quanto mais submissas se tornavam, mais deprimidas ficavam”, conta.
De acordo com a delegada, nos depoimentos, as mulheres contaram como eram manipuladas emocionalmente.
“Foi uma investigação bastante complexa, pois a prova testemunhal sempre vinha carregada de emoção. Chegamos a esse resultado através de escuta qualificada e empatia com as vítimas que procuraram a Delegacia. A violência que elas sofreram se perpetuou por muito tempo, o que as deixou fragilizadas e, muitas vezes, com sentimento de responsabilidade por aquilo que aconteceu”.
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Abalo emocional
Uma das que fizeram a denúncia contou como foram as primeiras experiências sexuais. “Nos primeiros momentos ele passava as mãos nas minhas pernas, depois foi passar as mãos nos seios, depois foi pra tirar minha blusa. Depois, ele pedia pra eu passar a mão nele, imitar os gestos dele”, aponta. “E eu era muito resistente, desconfiada. Eu tava muito frágil emocionalmente. Ele tinha conquistado a minha confiança, mas, mesmo assim, eu tinha uma resistência. E aí ele dizia: ‘Tu quer te curar ou não?’, recorda”.
“Começou a fazer todo um reconhecimento aonde que eu tinha que fazer a masturbação nele, que é onde me levaria a um estado espiritual, de uma expansão de consciência”, relata.
As vítimas contam que tentavam se afastar do terapeuta. “Quando eu me afastava ele sempre trazia alguma mensagem ou me ligava, e eu não sei o que ele acessava em mim, mas eu terminava a ligação e entrava em prantos. Aquilo me remetia que eu tinha que voltar lá, porque só ele poderia me curar ou me auxiliar. E ele era muito rígido nisso, que só ‘eu’ tenho o amor, só ‘eu’ posso ensinar, só ‘eu’ posso mostrar o caminho”, descreve.
Uma das mulheres que denunciou o abuso era casada. O relacionamento não suportou a crise provocada pelas revelações.
“Hoje, nós estamos num processo de divórcio. Nossa vida financeira despencou. Foi um processo que nos custou muita coisa”, revela.
A mulher conta que não se sentia à vontade com o tratamento e tentou se afastar. Mas o terapeuta voltava a se aproximar.
“Toda vez que eu mostrava alguma resistência, ele entrava com esse discurso de que ele só poderia me ajudar se eu me ajudasse, se eu aceitasse, e que eu tinha que confiar nele. E vinha com o discurso, de novo, de que o propósito dele era auxiliar muito os seres humanos.”
Quando a cura prometida não veio, e elas entenderam o que acontecia, resolveram procurar a polícia. “Quando eu consegui aceitar que eu estava sendo abusada sexualmente. Que eu estava sendo manipulada”, afirma uma das vítimas.
“Ele manipulava a ponto de acreditarmos que ele era um mestre, que ele sabia das coisas. E na terapia, ele me anula. Ele dizia que a minha vida estava um caos por minha culpa, porque eu escolhia errado”, afirma uma das mulheres.
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Nota da defesa
A defesa irá analisar a decisão e um possível recurso. Ficamos surpresos com a decisão, tendo em vista que o acusado é primário, de bons antecedentes, tem residência fixa, vínculo familiar e vinha cumprindo todas as cautelares determinadas pelo juiz do processo. Importante salientar que o juiz, após várias audiências, deferiu o pedido de soltura por entender que Rogério possuía condições de responder em liberdade. Assim, a defesa segue trabalhando para provar a inocência do acusado.