Mulher, de 33 anos, com doença degenerativa, foi levada ao hospital em estado grave. Polícia Civil investiga abuso financeiro. RS é o 5º estado com mais denúncias de violência contra pessoas com deficiência. Cadeirante é resgata após ficar em cárcere privado por 7 meses em Canoas
Uma mulher, de 39 anos, foi presa, nesta sexta-feira (30), em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, por suspeita de manter a própria irmã, de 33 anos, que é cadeirante e tem uma doença degenerativa, em cárcere privado por cerca de sete meses.
“Ela parecia estar mumificada, aquela imagem da múmia que a gente tem. Só o rosto lembrava um ser humano. O corpo destruído, e a pessoa viva. Ela não está lúcida mais, não consegue falar
. Certamente foi, em todo a minha carreira na polícia, a situação mais grave, mais terrível, mais desumana que eu já vi”, resume o delegado Mário Souza, diretor da 2ª Delegacia Regional de Canoas.
A Polícia Civil recebeu uma denuncia anônima e, na segunda-feira (26), foi ao local resgatar a vítima. Ela estava debilitada e os socorristas do Samu a encaminharam para o Hospital Universitário, onde ela permanece, na UTI, em estado grave.
“Ela não conseguia tomar banho, não conseguia se locomover, não tinha mais roupa. Estava nua, na cadeira, fazendo as necessidades ali, sem água, sem luz por vários meses, muito lixo na casa, fezes, urina, sangue, tudo aquilo no mesmo lugar, e ela lutando para sobreviver”, descreve o delegado.
Vídeos que circularam na internet e que estão sendo usados na investigação mostram o momento em que a mulher chegou ao hospital. Imagens feitas logo após o resgate mostram as péssimas condições de higiene em que a mulher ficava.
As duas irmãs moram no mesmo terreno. A suspeita vivia numa casa com um filho menor de idade, e a vítima dos maus-tratos ficava numa peça anexa, sozinha. Durante as buscas na residência da suspeita, os policiais encontraram um pedaço de madeira, que, segundo o delegado Pablo Queiroz, foi confessado pela irmã mais velha, era usado para “corrigir as crianças”.
“Algo totalmente inadequado, totalmente inaceitável essa conduta”, pontua o delegado.
Uma linha de investigação da polícia é que a irmã estivesse usando o dinheiro da pensão que a vítima tinha direito. Na bolsa da investigada, os policiais encontraram um cartão.
“A polícia agora apura uma motivação financeira, à medida que a vítima recebia um auxílio governamental no valor de R$ 1,1 mil mensais e quem fazia o uso e sacava os valores era a irmã, que sequer água encanada tinha em casa”, diz o delegado Rafael Pereira.
Ela deve responder aos crimes de tortura, abandono de incapaz e cárcere privado.
Cadeirante de 33 anos foi resgatada e levada ao hospital em estado grave, em Canoas.
RBS TV/Reprodução
10 mil denúncias em 2020 no Brasil
Em 2020, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, 10.428 denúncias de violência contra pessoas com deficiência foram feitas pelo Disque 100 e pelo 180. O Rio Grande do Sul é o 5º estado com maior número de registros: 631.
“A pessoa com uma deficiência não consegue, dependendo dessa deficiência, fazer uma denúncia. Não é que ela não quer. Ela não consegue. Essa pessoa aqui em Canoas não conseguia fazer nada. Não conseguia telefonar, nem falar. A gente pede que a sociedade, quando perceba isso, vá atrás, questione. Não interessa se é a mãe, a irmã, o pai, o filho. Chama a polícia e faz uma denúncia”, completa o delegado Mário.
As denúncias podem ser feitas por telefone através do Disque 100, do 180 e também do 181, o Disque-denúncia da Secretaria de Segurança Pública do estado (SSP-RS). As ligações são gratuitas e os serviços funcionam 24 horas por dia, inclusive em fins de semana e feriados.
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