Ex-secretário especial da Coordenadoria de Diversidades e Comunidades Tradicionais, Rogério Tigre é suspeito de exigir parte dos salários dos assessores. Ele nega. Polícia Civil abriu um inquérito para investigar o caso. Prefeitura de Canoas apura caso de ‘rachadinha’; secretário municipal é afastado do cargo
A Prefeitura de Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, afastou o ex-secretário especial da Coordenadoria de Diversidades e Comunidades Tradicionais, Rogério Tigre, por suspeita da prática da “rachadinha” ao exigir parte dos salários de ex-assessores. Uma denúncia foi registrada, nesta terça-feira (4), na 1ª Delegacia de Polícia Civil, e um inquérito foi aberto para apurar o caso.
Tigre nega as acusações e informa que o dinheiro entregue a ele pelo ex-diretor Igor Leite é referente à prestação de serviços religiosos.
O G1 fez contato com a Prefeitura de Canoas e aguarda posicionamento sobre o caso.
Igor atuou por dois meses na pasta e ganhava um salário de mais de R$ 9 mil. Porém, ele diz que o ex-secretário exigia mais da metade deste valor.
“Ele disse: ‘Não estou te pedindo uma ajuda, esse dinheiro é meu, eu te indiquei aqui, então tu tem que me dar’. Como eu achei que era aquele mês, eu fiquei muito contrariado, avisei ele que não concordava, mas entreguei o valor”, diz Igor.
Ex-conselheiro tutelar, Rogério Tigre se apresenta como ativista por justiça social. Ele concorreu a vereador, mas não se elegeu, e a acabou nomeado pelo prefeito Jairo Jorge.
Igor sustenta que ganhou o emprego por ter feito campanha para Tigre, e que o dinheiro da “rachadinha” tinha como finalidade ressarcir gastos anteriores e visar a próxima eleição.
“Ele disse que, pelos quatro anos, dois anos são para pagar dívidas de campanha e os outros dois anos para que eu possa investir na campanha de 2024. Não fiquei satisfeito, e ele respondeu que, caso eu não concordasse, não efetuasse esse repasse, eu seria exonerado”, afirma o ex-assessor.
Conforme a denúncia, além de Igor, outras duas funcionárias do órgão também eram obrigadas a devolver parte dos salários. Quem faria a arrecadação seria a mãe do secretário. No primeiro mês, Igor gravou em áudio as contas do repasse.
“Esse mês deu R$ 5.506. Eu tinha acertado contigo de R$ 3 mil, né? Esse mês eu não peguei o mês cheio, porque eu comecei dia 8. Daí eu fiz o cálculo… R$ 3 mil”, cita o ex-assessor na gravação.
O valor é proporcional aos dias trabalhados em janeiro, primeiro mês da nomeação. “Divididos pelos 30 dias, se eu tivesse começado dia 1º, dá R$ 100 por dia, no caso. Como eu trabalhei 24 dias, daí eu peguei R$ 2,4 mil”, afirma Igor.
Na conversa gravada com a mãe do secretário, o assessor tenta reduzir o valor do repasse para cobrir as despesas do transporte. Mas ela diz que enfrenta dificuldades financeiras.
“Eu não sei o que o Tigre vai conversar contigo, mas é que, assim, ele deve ter te explicado. Eu estou até com a minha casa penhorada”, teria dito a suspeita.
Secretário é afastado, em Canoas, suspeito da prática da “rachadinha”
Reprodução/RBS TV
Afastamento dos cargos
Igor e uma colega prestaram depoimentos em uma investigação interna aberta pela prefeitura. Ele e o secretário foram afastados dos cargos.
“A prática de ‘rachadinha’, no contexto, ambas as partes envolvidas, elas estão incorrendo em um ilícito criminal. Tanto a pessoa que exige a parte, tanto a pessoa que entrega esse valor. Então, a princípio, as duas partes estariam agindo de uma forma ilícita”, aponta o controlador-geral de Canoas, Roger Almeida.
O advogado Demetrius Teixeira, porém, diz que os funcionários que fizeram a denúncia não podem ser enquadrados criminalmente.
“Somente o sujeito que exigiu a vantagem indevida será responsabilizado pelo ato. Os servidores que tiveram parte dos salários recolhidos pelo secretário são tão vítimas quanto os cofres públicos do município”, avalia.
Namorada é suspeita de coação
Igor também denuncia que a namorada do secretário afastado teria convencido uma das denunciantes a voltar atrás no depoimento e livrar Tigre das acusações. Ele também foi procurado para se retratar e, caso desmentisse o que havia declarado, seria reconduzido ao cargo.
O novo depoimento seria registrado em cartório. Igor recebeu um termo cujo texto aponta uma retratação de qualquer declaração sobre repasses a Tigre. Porém, antes da assinatura, a namorada do ex-secretário deixou o local ao perceber a presença da reportagem da RBS TV.
A namorada do secretário afastado pode responder por coação, por tentar atrapalhar a investigação. Tigre afirma desconhecer qualquer tentativa de atrapalhar a apuração do caso.
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