Quando uma mulher recebe a notícia de que precisa retornar para exames adicionais depois de uma mamografia de rastreamento, a reação mais comum é associar aquilo a maior segurança, como se convocar de novo significasse cuidado redobrado. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues chama atenção para um dado que raramente chega ao público: a taxa de reconvocação é, na verdade, um indicador formal de qualidade dos programas de rastreamento, e valores muito acima do esperado sinalizam problema, não excesso de zelo.
Parâmetros internacionais recomendam que a proporção de exames classificados como inconclusivos ou suspeitos fique abaixo de 10% em mulheres realizando o primeiro exame de rastreamento, e abaixo de 5% nos exames subsequentes. Um estudo brasileiro que analisou milhares de mamografias, no entanto, encontrou taxa de reconvocação de 19%, quase o dobro do parâmetro considerado adequado internacionalmente. Entender por que esse número importa tanto e o que ele revela sobre a qualidade de um serviço de rastreamento ajuda a esclarecer um aspecto técnico que raramente aparece nas conversas sobre prevenção do câncer de mama.
Por que uma reconvocação em excesso é considerada um problema, e não apenas prudência?
Cada reconvocação representa exames adicionais, ansiedade prolongada para a paciente, exposição extra à radiação quando envolve nova mamografia e custo adicional para o sistema de saúde, tudo isso para investigar um achado que, na imensa maioria das vezes, acaba se confirmando benigno. Quando essa taxa fica muito acima do parâmetro internacional, o sinal mais provável não é excesso de cuidado, mas sim dificuldade técnica na interpretação inicial do exame, seja por treinamento insuficiente do radiologista, seja por problemas na qualidade da própria imagem produzida.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, esse indicador funciona de forma parecida a um termômetro de qualidade: números baixos demais podem indicar radiologistas relutantes em sinalizar qualquer achado, arriscando deixar passar casos reais, enquanto números altos demais sugerem interpretação excessivamente cautelosa, sinalizando alterações que, com mais experiência, seriam reconhecidas como normais desde a primeira leitura. Para ele, o ponto ideal fica exatamente no meio dessas duas armadilhas.
O que o valor preditivo positivo revela quando cruzado com a taxa de reconvocação?
O mesmo estudo brasileiro que encontrou taxa de reconvocação elevada também identificou valor preditivo positivo de apenas 1,65% entre os exames considerados anormais, abaixo do que a literatura internacional recomenda como adequado. Isso significa que, de cada cem mulheres reconvocadas por um achado suspeito, uma proporção bem pequena efetivamente tinha câncer, reforçando que boa parte dessas reconvocações provavelmente poderia ter sido evitada com interpretação inicial mais precisa.

Na avaliação do médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, olhar para esses dois indicadores em conjunto, e não isoladamente, é o que realmente permite avaliar a qualidade de um serviço de rastreamento. Uma taxa de detecção de câncer aceitável, acompanhada de reconvocação excessiva e baixo valor preditivo positivo, sugere que o serviço encontra os casos reais, mas ao custo de investigar um número desproporcional de casos que nunca precisariam ter sido reconvocados.
Por que esse tipo de indicador raramente chega ao conhecimento da paciente?
Diferente da taxa de detecção de câncer, número que costuma ganhar destaque em campanhas e relatórios públicos por soar mais diretamente ligado a vidas salvas, indicadores como taxa de reconvocação e valor preditivo positivo permanecem quase exclusivamente dentro de relatórios técnicos voltados a gestores e auditorias internas de qualidade. Essa falta de visibilidade pública dificulta que a própria população cobre melhoria desses números, já que raramente sabe que eles existem ou o que significam na prática.
Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, tornar esses indicadores mais acessíveis ao público, talvez por meio de relatórios anuais simplificados por serviço ou região, poderia criar pressão adicional por melhoria de qualidade, algo que hoje depende quase exclusivamente da iniciativa interna de cada instituição de saúde. Ele reforça que transparência sobre qualidade técnica deveria acompanhar, com o mesmo peso, a transparência já existente sobre cobertura populacional de rastreamento.
O que pode ser feito para reduzir uma taxa de reconvocação acima do esperado?
Investimento em capacitação continuada de radiologistas, com atualização regular sobre os critérios de classificação do BI-RADS, tende a reduzir divergências de interpretação que hoje levam a reconvocações desnecessárias. Sistemas de auxílio computadorizado à interpretação, e mais recentemente ferramentas de inteligência artificial, também já demonstraram capacidade de reduzir essa variabilidade, funcionando como uma segunda referência que ajuda o radiologista a calibrar melhor sua própria decisão diante de achados limítrofes.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que qualidade de rastreamento não deveria ser medida apenas pelo número de mulheres atendidas, mas também pela precisão de cada decisão tomada durante a interpretação desses exames, já que uma taxa de reconvocação elevada, mantida ano após ano sem correção, representa desperdício de recursos e ansiedade evitável para milhares de mulheres que passam por reconvocações sem necessidade real.
Olhar com atenção para indicadores técnicos como esse mostra que qualidade de rastreamento vai muito além de garantir que o exame aconteça, envolvendo também a precisão de cada interpretação realizada depois que a imagem já foi produzida. Reduzir esse número não significa relaxar a vigilância contra o câncer, mas refinar a capacidade de distinguir, desde a primeira leitura, o que realmente exige investigação adicional.
