Morte de cidadão negro espancado por seguranças brancos provocou indignação pela violência racista. ‘Não sei como vai ser’, diz viúva de João Alberto, morto em supermercado de Porto Alegre
A indignação pela morte de João Almeida Silveira Freitas ecoou pelo país todo desde a última quinta-feira (19). As imagens do cidadão negro, morto após ser espancado por dois seguranças brancos, após um desentendimento no supermercado da Rede Carrefour, em Porto Alegre, provocaram uma onda de revolta contra a violência racista. Era véspera do Dia da Consciência Negra.
“Nós negamos ao João Alberto a condição essencial de qualquer pessoa humana no Brasil: a sua cidadania”, resume o advogado Fabiano Machado da Rosa.
Muitos passaram a perguntar: por que as testemunhas não tentaram impedir a agressão?
“As pessoas estão amedrontadas, não sabem mais quem é mocinho, quem é bandido. Então, as pessoas evitam de se envolver”, avalia a doutora em psicologia social e institucional Fernanda Bassani.
Para ela, quem assistiu provavelmente também fez julgamentos.
“Bom, tais pessoas estão, de repente, bem vestidas ou estão fardadas ou possuem o logotipo de alguma empresa, essas pessoas devem ter a razão… essa pessoa é um homem negro, tá de boné. Essa pessoa pode ser um suspeito, pode ser uma ameaça. E a partir daí, há um julgamento [a testemunha] não se sente autorizada pra intervir”.
Para o advogado Fabiano Machado da Rosa, não há dúvida de que os dois seguranças tiveram motivação racial no crime.
“Nós percebemos que aqueles dois criminosos agiam quase como se não houvesse a mínima possibilidade punição. Esse ponto precisa ficar muito claro nesse acontecimento”, diz. “Não foi um incidente, esse crime, foi simplesmente a confirmação de espirito de impunidade”, observa.
Câmera de segurança mostra início da confusão antes do assassinato brutal de João Alberto no RS
‘Sem cena, tá? A gente te avisou da outra vez’, diz segurança enquanto João Alberto estava imobilizado e agonizava
Depois da morte de João Beto, circularam notícias dizendo que ele era um homem de comportamento violento, que tinha passagens pela polícia. A ficha criminal da vítima registra 25 ocorrências, a maioria por violência doméstica e ameaças. Nenhum tem relação com o brutal assassinato do qual foi vítima.
“Nem o estado pode tirar a vida de um cidadão brasileiro, quanto mais dois cidadãos privados possam tirar a vida de um cidadão”, afirma Fabiano.
“Um cidadão no Brasil ele é autuado, ele é processado, ele responde ao devido processo legal, e ele é eventualmente punido, até mesmo com a pena de reclusão, nunca com a pena capital”, ressalta o jurista.
Segundo o advogado, ligar o assassinato de João Beto às ocorrências policiais registradas contra ele é construir uma falácia. “No sentido de negar a existência do racismo e justificar a barbárie que é injustificável”, completa.
João Alberto Silveira Freitas
GloboNews
Mito da democracia racial
O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, negou a existência do racismo no Brasil. “Para mim, não existe racismo no Brasil. Isso é uma coisa que querem importar aqui pro brasil, isso não existe aqui”, declarou.
E o presidente Jair Bolsonaro, sem citar o caso de João Alberto, falou sobre o assunto em seu discurso na Cúpula do G20.
“Quero fazer uma defesa do caráter nacional brasileiro, em face das tentativa de importar para o território brasileiro tensões alheias à nossa história. O Brasil tem uma cultura diversa, única entre as nações. somos um povo miscigenado. Brancos, negros e índios edificaram o corpo e espírito de um povo rico e maravilhoso”, afirmou.
“Contudo, há quem queira destruí-la e colocar em seu lugar conflito, ressentimento, ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de luta por igualdade ou justiça social, tudo em busca de poder”, disse o presidente.
Ideias como essa fazem parte do mito de democracia racial no Brasil, como avalia o antropólogo Kabengele Munanga.
“Morre um negro, não há racismo? Mas eles não se perguntam por que os brancos não são torturados, não são mortos nas mesmas condições”, afirma.
Avaliando as cenas gravadas no mercado antes do espancamento de João Alberto, Fernanda Bassani afirma que é possível notar uma tentativa intimidação. “Os seguranças vão se aproximando, numa perspectiva de produzir uma intimidação corporal”, diz.
“Aquele sujeito é entendido como uma ameaça. Isso é muito importante que fique claro. Aquele sujeito negro, de boné, com aquele tipo de jaqueta, ele não é mais entendido como cliente. Ele é entendido como ameaça, ele é associado ao estereótipo de uma pessoa que ou vai roubar, ou vai causar algum tipo de transtorno no supermercado”, avalia.
A ameaça se demonstra quando Beto é conduzido para um local de seguranças, segundo a especialista, para que a relação de “opressão e intimidação” possa acontecer, sem interferência do público. “Mas a partir desse momento, se cria uma situação de explosão de violência”, avalia.
De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2018, 120 pessoas negras foram assassinada por dia, uma média de cinco pessoas por hora.
“O corpo negro no Brasil não importa. Pode matar, pode torturar, pode fazer o que quiser. Nada acontece. Porque eles fazem isso com o corpo negro? Você já viu supermercado no Brasil como aquele lugar onde mata um branco?”, finaliza o antropólogo.
João Batista Rodrigues Freitas, pai de João Alberto
Reprodução / RBS TV
‘Só porque sou preto…’
João Batista Silveira Freitas morreu aos 40 anos. Era filho de João Batista, pastor evangélico. Perdeu a mãe há três anos. Possui quatro filhos de relacionamentos anteriores, e uma neta. Morava com Milena Borges, a atual companheira, perto do supermercado da Rede Carrefour, onde foi morto.
Ela diz que eles não falavam com frequência sobre a questão de ser negro. “Ele brincava e diziam assim para mim “só porque sou preto…”. Quando iam ao mercado juntos, no entanto, Milena diz que os seguranças ficavam olhando.
A noite do dia 19 seria mais uma como qualquer outra. “Era para ser uma simples compra. Ir para casa e jantar. Um dia, uma noite normal”, diz Milena.
No dia do assassinato, seu João Batista recebeu uma ligação da nora e correu para o supermercado.
“Quando eu cheguei lá, ele tava sendo atendido por um paramédico. Tinha duas ambulâncias. E eu já cheguei no período final da coisa. Pouco tempo, o médico tentou reanimá-lo, e ele já não apresentou mais sinal de vida”, diz.
O pai acredita que o filho foi morto devido à cor da pele . “Porque agrediriam com tanta raiva? Essa raiva, sim, essa força da raiva vem de um ato de racismo”, diz.
VÍDEOS: Caso João Beto
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