No conturbado processo de demissão do ex-ministro Sergio Moro, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), aliada de primeira hora do presidente Jair Bolsonaro, entrou em campo com uma proposta que seria tentadora. A parlamentar ofereceu a Moro uma vaga no Supremo Tribunal Federal caso o ministro topasse acomodar Alexandre Ramagem no comando da Polícia Federal e desistisse de deixar o governo. As mensagens da tentativa de acordo foram vazadas e, com elas, surgiu a célebre frase: “Prezada, não estou à venda”, dita por Moro à deputada. O ministro pediu demissão no dia seguinte fazendo uma série de acusações contra o governo e se transformando em um arquirrival do bolsonarismo.

O general Carlos Alberto Santos Cruz, que deixou a Secretaria de Governo no ano passado, também passou por um processo de “convencimento”.  No caso dele, a permanência na pasta era tida como inviável, dado o altíssimo nível de animosidade que rondava o seu gabinete. A solução, então, foi encontrar um jeito de acomodar o militar e evitar que o fogo cruzado continuasse. Também não deu certo.

No dia 13 de junho do ano passado, o general Augusto Heleno, braço-direito de Bolsonaro e chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), entrou no gabinete de Santos Cruz dizendo que o presidente estava lhe chamando. Estranhando o contato, já que o clima entre os dois, àquela altura, já estava péssimo, ele perguntou o motivo.

Heleno antecipou: o presidente lhe ofereceria o comando do Sesi (sim, o tal Sistema ‘S’ que Paulo Guedes iria aniquilar). O salário no órgão chega a quase 60.000 reais. Santos Cruz entendeu o recado: queriam criar algum tipo de saída honrosa para ele. O general, então, foi até a sala de Bolsonaro, parou na porta e foi direto: “Olha aqui, ó. Vamos facilitar as coisas, estou de saída. Tchau”. Sua exoneração foi oficializada no dia seguinte, e ele se recusou a assumir qualquer cargo.

Santos Cruz acabou demitido após entrar em colisão com a chamada ala ideológica do governo – entram aí o filho Zero Dois Carlos Bolsonaro, o Secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, e até o proselitista Olavo de Carvalho. Entre as confusões com o grupo, estão o fato de Santos Cruz ter se recusado a priorizar a destinação da verba publicitária federal para mídias de direita e ter barrado a nomeação de Léo Índio, primo de Carlos, para um cargo com salário de 13.000 reais. “Pode ser filho do papa que eu não nomeio”, afirmou, ao ver o fraco currículo do indicado.

Lançado em uma panela de pressão, ele foi chamado de comunista, acusado de tentar boicotar o governo e até chamar o presidente de “idiota” e defender a escolha do vice Hamilton Mourão para o lugar dele. O caso foi parar na Polícia Federal, que concluiu que o material não passava de uma montagem completamente falsa.

Diferentemente de Moro, o até então discreto general não saiu do cargo atirando, mas guardou a artilharia para adiante. Santos Cruz, conforme mostra VEJA nesta edição, se transformou em um duro crítico do presidente Bolsonaro e de seu governo. Para o general, o atual governo virou um “PT verde-amarelo” e instaurou o “comunismo de direita” no Brasil. “Todo regime comunista totalitário divide para facilitar a manipulação. Depois, você ataca pessoas, não ideias. É um assassinato de reputações: todas as pessoas de que você não gosta não prestam. Temos ainda o culto à personalidade: é o mito, o messias, o cara designado por Deus. Isso tudo é uma técnica que quem consagrou foi o sistema totalitário, foi o comunismo. É o contrário de democracia”, afirma.

A preocupação do governo em agradar o militar, como se vê, fazia algum sentido.

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