O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), que tenta a reeleição, já preparou um arsenal de ataques contra o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), seu adversário no segundo turno do pleito na capital fluminense. VEJA apurou que Crivella começará com a artilharia pesada nos programas eleitorais na televisão e no rádio a partir desta sexta-feira, 20 e seguirá o tom nos debates e nas redes sociais. Nas próximas duas semanas, o esforço do bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus será para desconstruir a imagem de Paes, que reprisa em sua campanha a imagem de “bom gestor”. A equipe de Crivella reuniu uma dezena de dossiês que, segundo assessores, teriam calibre para comprometer Paes, especialmente em casos ligados a investigações e delações premiadas da Operação Lava Jato. Todo planejamento da ofensiva tem coordenação de Rodrigo Bethlem, o estrategista eleitoral de Crivella e ex-secretário de Paes.

Crivella tem à frente o desafio de reverter sua elevada rejeição. De acordo com levantamentos dos principais institutos de pesquisa, o prefeito registrou, dentre todos os candidatos, os maiores índices neste quesito – entre 59% (Ibope) e 62% (Datafolha). Na segunda-feira 16, Crivella, Bethlem e Gutemberg Fonseca, ex-secretário municipal da Ordem Pública (Seop), acertaram os últimos detalhes da estratégia desta dura reta final em uma reunião realizada na Cidades das Artes, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Gutemberg, ex-juiz de futebol, é um dos conselheiros de Crivella e também responsável pela campanha na internet. A ideia, ainda segundo assessores, é “ativar a memória dos cariocas” e revelar o suposto “legado ruim” que Eduardo Paes teria deixado na cidade. Na propaganda, serão dois blocos fixos de 10 minutos cada, divididos igualmente entre ambos os candidatos no rádio (das 7h às 7h10min e das 12h às 12h10min) e na TV (das 13h às 13h10min e das 20h30min às 20h40min).

A campanha de Crivella planeja revolver ainda situações incômodas a Paes, como a prisão do ex-secretário de Obras Alexandre Pinto, detido  em 2018 por cobrar propina de empreiteiros. As amizades de Eduardo Paes com o ex-governador Sérgio Cabral e Jorge Picciani, ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj) – outros dois presos na Lava Jato – também serão exploradas. A coordenação de campanha de Marcelo Crivella fez ainda uma varredura em todos os processos dos quais o ex-prefeito é alvo na Justiça. Internamente, o grupo do atual ocupante da cadeira no Palácio da Cidade avalia que, se no primeiro turno os eleitores tinham várias opções (no total, foram 14 postulantes ao cargo), agora escolherão pesando qual dos dois apresenta menos desvantagens – ou “o menos pior”. “Vamos tentar mostrar ao eleitor que ele tem à mesa um candidato corrupto e um candidato cristão, que herdou dívidas de Paes”, diz um dos assessores, referindo-se, respectivamente, a Paes e Crivella. Paes é réu na Justiça Eleitoral por prática de caixa dois na eleição de 2012. Já Crivella foi denunciado pelo Ministério Público por suspeita de chefiar uma quadrilha dentro da prefeitura para desviar dinheiro público. Os dois sempre negaram irregularidades.

A disputa não é nada trivial para o atual prefeito. No primeiro turno, enquanto ele amealhou 21,9% dos votos, Paes levou 37% – uma diferença considerável. Para superar o adversário no próximo dia 29, Crivella aposta ainda em um apoio mais efetivo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A coordenação da campanha avalia que a imagem de Bolsonaro colada à de Crivella na propaganda eleitoral foi fundamental para impulsioná-lo, embora a maioria dos candidatos chancelados pelo presidente em outros cantos do país tenha fracassado nas urnas. No caso de Crivella, Bolsonaro só pediu votos para o prefeito a poucos dias da eleição. Isso porque o bispo licenciado da Igreja Universal corria o risco de não ir para o segundo turno sob ameaça de ser ultrapassado pela candidata derrotada Martha Rocha (PDT), então em terceiro na disputa. Martha é aliada do ex-ministro Ciro Gomes, possível adversário de Bolsonaro em 2022.

As candidaturas à esquerda, de Martha e Benedita da Silva, do PT, somaram 22%, um eleitorado difícil de ser conquistado pelo conservador Crivella. Mas nas hostes de Benedita ele tem esperança de ganhar votos, já que ela também atrai o eleitorado evangélico. Nos bastidores eleitorais, no entanto, o PT caminha na direção de uma aliança com Eduardo Paes. Crivella também buscará os eleitores  Luiz Lima, do PSL que já foi de Bolsonaro, e torce para que a abstenção seja menor na rodada final das eleições – no primeiro turno, bateu os 32,7%. Daí podem sair mais votos, estes de que Crivella tanto precisa para tentar virar o jogo.

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